
Eu era um recém-chegado ao curso de Direito vindo de Matemática quando um tio meu ex-juiz de Direito, José Marcelino de Oliveira, me convidou para conhecer um advogado. “Um grande advogado”, me disse ele. “Um homem de bem, sério, íntegro, digno”. Era o Professor Raimundo Nonato. Não posso encontrá-lo – e o encontro muitas vezes caminhando na praia – sem que me lembre daquela ocasião e sem lamentar não ter sido seu aluno no final dos anos 70.
Aquela era uma época de ocaso no curso de Direito da Universidade Federal: uma geração de titãs estava depondo as armas. Aposentara-se Raimundo Nonato e logo o seguiriam Mário Moacyr Porto, Múcio Vilar Ribeiro Dantas, Oto de Brito Guerra, Eider Furtado de Mendonça e Menezes, Nogueira Fernandes, Paulo Soares, dentre outros. A seguir Ítalo Pinheiro, Ivan Maciel de Andrade, Jales Costa, Carlos Roberto de Miranda Gomes, Paulo Lopo Saraiva... Digo ocaso por um lado, mas posso dizer renascimento por outro, pois vivíamos o ressurgimento da Democracia, recriamos o Centro Acadêmico, comemoramos o centenário do nascimento de Hans Kelsen, fizemos os primeiros debates no Brasil entre candidatos a governador e senador após a ditadura e os corredores da Faculdade fervilhavam de discussões apaixonadas, de natureza filosófico/política acerca de temas tais como “a crise do Estado Burguês no Brasil”.
Crise do Estado Burguês/Liberal no Brasil? Como a queda do muro de Berlim ainda estava longe os paradigmas marxistas eram os instrumentos teóricos através dos quais analisávamos aquela circunstância histórica. Alguns posavam de leninistas e asseguravam que a América Latina era o elo fraco da corrente no momento. Era avassaladora a presença do marxismo enquanto aparato intelectual para a descrição da realidade social brasileira. Nada havia acerca do pensamento de Freud e uma conseqüente possível “teoria do vínculo social”. Não era possível aceitar a herança jusnaturalista fundamentada em uma teoria das fontes do Direito de conteúdo exclusivamente metafísico. Mas também não era possível aceitar o formalismo kelseniano por que associado ao legalismo exacerbado e estreito típico do autoritarismo e, portanto, à direita, e evidentemente carente do conteúdo explicativo próprio das grandes sínteses ontológicas. Marx era hegemônico.
E Marx nos dizia, através dos seus intérpretes, que o Estado nada mais era que um instrumento de opressão de uma classe sobre outra. Uma superestrutura ideológica resultante das relações de produção específicas daquela circunstância histórica. Dizia, ainda, que essa crise era típica de uma luta de classes, algo tão antigo, no Brasil, quanto sua descoberta por Pedro Álvares Cabral e que a crise do Estado burguês duraria enquanto não houvesse a Revolução.
Caiu o Muro de Berlim e com ele a hegemonia do pensamento marxista como paradigma para as ciências sociais. É bem possível que a queda tenha sido grande demais. Talvez muito de seu pensamento efetivamente não tenha caído. Penso, principalmente, no Marx sociólogo para distanciá-lo do Marx filósofo. Penso em rupturas epistemológicas e sinto a presença de Marx e de todo um conjunto de alavancas intelectuais que sobreviveram à queda do Muro de Berlim e ao seu ostracismo intelectual. E muito embora Marx não tenha escrito uma teoria do Estado pronta e acabada, encontro um interessante paralelo entre sua concepção de Estado enquanto resultante da luta de classes, divisão social do trabalho e relações de produção, nessa ordem, e uma possível teoria do Estado a partir das relações de domínio em uma perspectiva darwiniana. Muito embora seja inaceitável, hoje, até mesmo do ponto de vista lógico, o primado da infra-estrutura material originando a superestrutura ideológica, algo denominado “falácia naturalista” e já apontada por Henri Poincaré há algum tempo, o “insight” básico do Estado como cristalização de forças em conflito pelo Poder, em última instância, percebam bem, atende também aos paradigmas de um certo tipo de darwinismo. Ou seja, para apreendermos uma noção de Estado que não esteja contaminada pela “antropoformização” – a tendência de considerá-lo agente e não ambiente ou espaço - é plenamente satisfatório recorrer ao marxismo e sua noção de “aparelho” (na linguagem de Althusser e Poulantzas). Temos, então que entender aparelho como elemento de um conjunto sistemático desse tipo de estrutura burocrática instaurada por relações de poder e que constitui o Estado. Portanto o aparelho judiciário, o governamental, o legislativo, e assim por diante.
Falo agora em darwinismo por que de todas as grandes sínteses fornecedoras de paradigmas para uma ciência social ele foi o único que sobreviveu à virada do século. Falo em darwinismo por que é impossível compreender qualquer epifenômeno social atual fora de uma perspectiva positivista ou funcionalista ou formalista sem que para ele recorramos em busca de referencias teóricas que resistam, pelo seu próprio conteúdo, às críticas implacáveis do mundo acadêmico. E falo em darwinismo por que algumas de suas contribuições, aquelas que não estão sendo deturpadas e saturando de leviandade e misticismo a discussão acadêmica – em um interessante paralelo com a física quântica - podem ser bastante úteis na tentativa de explicar nosso mundo social.
Pois bem, para certo darwinismo a idéia de Estado é uma resposta adaptativa da espécie humana engendrada a partir das relações de domínio existentes em uma circunstância histórica. Que o Direito seja resultante dessas relações de domínio até mesmo o cauteloso Bobbio assevera. Assim como Pierre Bourdieu. O marxismo diz o mesmo com outra linguagem. Que o Estado tenha surgido de atos de força, ou seja, de Poder, há uma tradição que começa com Platão, passa por Renan, Nietsche, Kautsky, os marxistas, Popper e chega aos nossos dias. Devo observar que essa conjectura não nos permite construir visões de como será o futuro. Embora possamos encontrar leis gerais explicativas, sempre esbarramos no óbvio: pode haver leis ainda mais gerais, ainda não descobertas, que englobem a anterior e apontem para rumos desconhecidos. Dizendo de forma simples: é impossível a predição. Mesmo que o sol nasça todo dia, talvez não nasça amanhã. É apenas provável que nasça amanhã.
Mas essa teoria permite que expliquemos o passado e nossa explicação resista às críticas. Então talvez possamos compreender como surge o Estado, e com qual papel, a partir de um dos corolários da teoria da evolução. A evolução – não no sentido moral – vai do mais simples para o mais complexo. Se visualizamos a árvore do conhecimento compreendemos essa afirmação. Imaginemos, por exemplo, a evolução da matemática, desde a aritmética ao cálculo de tensores hiperespaciais. Ou da música. Ou do Direito. Ou da norma jurídica, mais específicamente: concreta e pessoal por que casuísta, antes, para geral e abstrata, hoje, típica de uma necessidade política complexa. Ou as normas jurídicas das sociedades mecânicas para as normas jurídicas das sociedades orgânicas, como queria Durkheim. Esse corolário, aliado à contribuição de Herbert Spencer acerca da diferenciação e especialização das espécies da qual Popper fez uso em sua teoria do conhecimento é um rico manancial para analisarmos se realmente há uma crise do Estado ou se essa crise é aparentemente fabricada.
Uma conseqüência óbvia da utilização desses paradigmas é identificar estratégias adaptativas: Marx, Darwin e até mesmo a moderna Sociologia, com Pierre Boudieu e a categoria filosófica do Poder Simbólico ajudam a compreender a possibilidade de que a idéia de que a “Crise do Estado” seja uma manipulação, algo próprio do jogo do Poder Político. E ajudam a compreender a “função de ocultação” que um conceito como o de Estado veiculado pela mídia possui. Não precisamos ir muito longe. Basta nos lembrarmos dos EUA fabricando a crise do Iraque para ocupar, estrategicamente, suas reservas de petróleo. Basta nos lembrarmos dos EUA fabricando a crise com o Irã para continuar detendo a hegemonia nuclear na Terra. O modelo é simples: cria-se um inimigo estratégico potencial (hoje é o terrorismo, ontem foi o comunismo); cria-se uma crise; mobiliza-se e manipula-se a sociedade através da mídia (veja-se o caso de Chomsky); e arranca-se das mesmas vítimas de sempre o ônus da luta (impostos, vidas).
Do ponto de vista concreto a lógica do Poder Político fabrica consensos e gera crises. O Consenso de Washington, um conjunto de propostas teóricas acerca de como deve ser a gestão da economia mundial legitima e impõe uma crise ao Brasil que não é do Estado, vez que os aparelhos estatais tais como o judiciário e o legislativo continuam funcionando normalmente. Uma das crises imposta ao Brasil é a imposição do superávit primário como meta de Estado. E ela nos é imposta sob a ameaça da fuga do capital estrangeiro que financia nossa execução orçamentária. Dinheiro para o superávit é escassez para infra-estrutura. Para saúde. Para educação. Para segurança pública. Outra crise imposta ao Brasil foi o despejo de dinheiro público para sanear bancos privados em débâcle financeira por má gestão. A mídia – o chamado “clero secular” para lembrar a expressão de Isaiah Berlin – trabalhou muito e bem, financiada com nosso dinheiro, para que ficássemos apavorados com a possibilidade de todo nosso sistema financeiro ruir por terra. O “clero secular”, por ignorância ou má-fé, exerce um papel fundamental nesse processo de gerar crises: não por outra razão setores avançados da elite dominante acreditam piamente que haja um déficit previdenciário. E acabar com esse déficit é uma política de Estado Não sabem eles que o Governo coloca sob essa denominação não apenas o pagamento das aposentadorias, mas, também o programa de inclusão social através do colossal repasse de dinheiro da classe média para a aposentadoria rural. Entendido dessa forma não há previdência pública que funcione. Lembro, aqui, que a criação da contribuição previdenciária do aposentado contou com a participação decisiva do Supremo Tribunal Federal e a flexibilização do conceito de “direito adqurido”. Lembro, também, que dias antes da votação no Supremo Tribunal Federal um ainda não ministro expedira um parecer condenando veementemente essa flexibilização o que não o impediu de, uma vez agora ministro, mudar rapidamente de idéia.
A lógica do poder político pode ser tudo, menos burra. Vejam o caso da atual greve dos bancários. Vejam o que os bancários reinvidicam. Vejam o que os banqueiros oferecem. Vejam o lucro estratosférico dos banqueiros. Entendam por que os banqueiros não podem ceder: é a teoria do dominó, cedendo um, não há quem segure. Outra conseqüência do “Consenso de Wanshington” é a expropriação lenta, contínua e determinada da força de trabalho do servidor público, que é a parcela mais representativa da classe média: há uma expropriação direta, através da cobrança do imposto de renda, e há uma indireta, através do corte de vantagens. E há uma terceira expropriação: o aumento do custo de vida, que certamente não afeta a parcela da elite que repassa o ônus para os menos favorecidos e a inflação. Esse achatamento remuneratório, digamos assim, engendra corrupção e desídia. Em uma escala muito mais ampla e perigosa, amordaça a classe média por que a amedronta com o fantasma da impossibilidade de manutenção do seu “status quo”. É incalculável a dor de um pai típico da classe média que é obrigado a tirar o filho de um colégio particular para colocá-lo em uma escola pública. Percebam a distorção.
Percebam, também, a distorção que é o chamado contingenciamento orçamentário. Contigencia-se o orçamento para manipulá-lo. A possibilidade do contingencimento torna inútil toda a discussão política que origina o orçamento. O que é contingenciado? As políticas públicas por que são lentas e longas, atravessam governos. E o Poder quer o agora, o imediato. Quer obras, às vezes não tão necessárias, mas para as quais há a demanda de setores específicos e poderosos da elite. Mas não quer um programa para a erradicação da mortalidade infantil por que implica em um longo e lento período de execução.
Observem que tudo quanto foi mencionado é decisão política: criação de inimigos fictícios do Estado, flexibilização de uma cláusula pétrea da Constituição Federal, criação da contribuição previdenciária, necessidade de pagar o superávit fiscal, o contingenciamento orçamentário. Decisão de quem detém o Poder Político. Decisão de quem não assume o ônus da decisão e o transfere para essa entidade hipostasiada, abstrata, fictícia chamada Estado. Por que de concreto há, como nos mostra a ciência, relações de domínio, relações de Poder.
Então é preciso olharmos com um olhar crítico essa idéia de “Crise do Estado”. É preciso percebermos a função de ocultamento que o termo Estado possui conforme lidamos com ele hoje. Dizemos “Política de Estado” quando deveríamos dizer “Política da Sociedade”. Por que não podemos nem devemos aceitar que os detentores do Poder usem os aparelhos do Estado como escudo abstrato para ocultar sua manipulação. “Não sou eu, é a lei.” “Cumpro meu dever”. “Obedeço ordens”. Essa expressões são tão mais perigosas por que isentam seus protagonistas da responsabilidade política crítica que devem ter em relação ao que fazem com seus semelhantes. “Política de ou do Estado”: essa antropoformização dos aparelhos estatais torna impessoais as relações entre dominantes e dominados e permite ampliar e sofisticar os mecanismos de dominação. Óbvio que a grande maioria daqueles que exercem parcelas residuais de Poder não percebem o caráter de “correia-de-transmissão” que envolve seus atos. Não percebem e virão a ser punidos mais na frente, por que são peças descartáveis, utilizáveis apenas enquanto otimizam o processo de expropriação que a configuração de poder existente instaura. E mais que em qualquer outro ambiente essa realidade se faz presente no campo jurídico.
É preciso também olharmos criticamente as manobras diversionistas decorrentes dessa alienante manipulação: é muito comum encontrarmos em ambientes acadêmicos propostas de “aperfeiçoamento do Estado”. Todas as vezes que escuto essas propostas me lembro que antes os governos imperialistas esmagavam resistências com espadas, lanças e escudos, como foi o caso de Roma; hoje o esmagamento é feito com armas muito mais aperfeiçoadas, como fuzis com mira a laser. O Estado aperfeiçoado é o Estado Orewelliano.
Dessa forma, parece claro que devemos aperfeiçoar a Democracia. É no campo político que são tomadas as decisões que impulsionam os aparelhos do Estado. É preciso crítica, vigilância, participação. É preciso um combate constante, profundo, amplo e disseminado ao autoritarismo. É preciso ampliar até o limite do possível a inserção dos excluídos no processo político. Caso contrário continuaremos pagando o preço da nossa alienação: confundirmos o aparente com o essencial; o contingente, com o estrutural; o circunstancial com o definitivo.
É preciso crítica, vigilância e participação principalmente por que a tomada, por setores da elite, dos aparelhos do Estado pode engendrar tentações autoritárias: em recente episódio ocorrido no Norte do País, integrantes da cúpula do Tribunal de Contas, Assembléia Legislativa, Ministério Público, Poder Judiciário e Poder Executivo – uma quadrilha de aparelhos do Estado – foi flagrada em crimes que causam comoção e indignação, tentações autoritárias e críticas à democracia. Entender assim, entretanto, é um viés equivocado. Ao contrário do que se supõe, somente nas democracias é possível expor publicamente um tumor dessa natureza.
Para que esse processo de crítica, vigilância e participação se torne efetivo é preciso que nós nos mobilizemos e combatamos aquilo que mudou para pior desde os tempos em que o Professor Raimundo Nonato ensinava na Universidade Federal do Rio Grande do Norte e era Consultor Jurídico do Estado: a qualidade dos nossos atores políticos. Estamos pagando o preço da nossa omissão. Somos condescendentes. Somos omissos. Somos ignorantes. Não introjetamos a lição que Péricles nos legou através da Oração aos Mortos de Maratona, no sentido de construirmos uma “Paidéia”, uma “Cultura” de Democracia real, concreta, não formal, abstrata. Uma Democracia de inclusão social. Políticas Públicas da Sociedade, não do Estado.
Precisamos combater a manipulação de uma realidade que insiste em saltar ante nossos olhos: o Brasil que vivemos não é aquele que os detentores do Poder nos apresentam. Basta sairmos daqui agora e irmos a postos de saúde, escolas públicas e delegacias de polícia para constatarmos que o que essa afirmação quer dizer. As modificações no aparelhamento do Estado são decisões políticas. São essas que devem ser modificadas. O “corpus” político deve configurar o Estado que é sempre autoritário e o colocar a reboque da Sociedade para que a tradição de Democracia enquanto valor seja preservada.
Quando falo em “atores políticos” uso a expressão em seu sentido lato. Precisamos de homens de bem, sérios, íntegros, dignos, que sejam como faróis em tempos de crise na Sociedade. Homens como o Professor Raimundo Nonato. Quando professor de Direito Administrativo da Universidade Federal do Rio Grande do Norte de uma turma de 5º período, nos idos de 1971, da qual faziam parte entre outros Lúcio Teixeira, Paulo Lopo Saraiva, Marco Aurélio de Sá, Lourdes Leite, atribuiu-lhes, na primeira avaliação, notas muito preocupantes. Resolveram homenageá-lo indicando seu nome para Patrono da Turma. Paulo Lopo Saraiva foi o encarregado de lhe comunicar a homenagem. Após entrar na sala de aula escutou a proposta da turma, agradeceu e lembrou: “Espero que vcs não contem com essa homenagem para alterar o quadro das notas. Essa homenagem não vai modificar nada”. E começou imediatamente, sem mais delongas, a dar aula.
Muito obrigado.